Denúncia | Cartel judaico dos casamentos no Rio de Janeiro - Casando Sem Grana
Direito do Consumidor

Denúncia | Cartel judaico dos casamentos no Rio de Janeiro

Eu prometi neste post que evitaríamos assuntos não ligados a casamentos e economia por aqui. Mesmo que aquele assunto tivesse uma relação, nosso intuito tem um foco e por respeito aos leitores, permanecemos nele.

Entretanto, recebemos uma denúncia da qual decidimos dar repercussão e apoio para uma possível solução. Vem da Yocheved, uma noiva judia, carioca, que decidiu representar uma classe antes desconhecida para nós: A das noivas judias sem grana!

Seu relato é enriquecedor. Vale ser lido com muita atenção e delicadeza a cada detalhe para nos fazer entender um pouco mais sobre os problemas desse grupo, tão semelhantes aos nossos. Ao final deste relato, deixamos nossas considerações.

Este e-mail é um misto de denúncia e desabafo, e vai elucidar um problema de muitas, garanto, MUITAS LEITORAS DE VOCÊS, que têm VERGONHA de escrever porque sabem que, infelizmente, vocês não podem ajudar. Falo isso porque EU CONHEÇO muitas dessas pessoas. EU SOU UMA DESSAS PESSOAS. E mesmo assim, lemos o seu blog em busca de respostas. Inspiração. Saída.    

Somos uma categoria de noivas muito particular: as noivas judias sem grana e desesperadas.

Vivemos num gueto cultural onde o ter é sobreposto em detrimento do ser. Desde pequenas, somos programadas para a trinca noivado-casamento-filhos. Quase todas somos pressionadas a casar “dentro da comunidade”. A pressão social é ENORME, e desde muito cedo sonhamos (e sonham por nós, é verdade) com o grande dia. Existe o cúmulo da “poupança casamento”. Eu mesma tenho amigas que poupam – EM DÓLARES – todos os meses para realizar a cerimônia do casamento das filhas. Eu também tenho uma amiga cujo pai poupou desde o primeiro mês de vida dela (ela casou com 29 anos), o noivo também poupou, as famílias deram mais um tanto, e eles levaram DOIS ANOS para pagar a cerimônia e a festa. É. É caro. Estamos falando de R$ 200.000,00, em valores de 2008.

No Brasil SÃO RAROS OS FORNECEDORES de fora da comunidade, ou seja, que não são da propriedade de judeus, que sabem e entendem a dinâmica de um casamento judaico. E É AQUI QUE COMEÇA DE VERDADE o esquartejamento.

Se você opta por fazer o casamento com fornecedores de fora da comunidade, eles cobram de 20% a 30% ACIMA do valor de mercado, baseando-se na premissa preconceituosa “É judeu? Tem dinheiro! Vamos enfiar a faca!”. Não, isso não é verdade! Eu mesma passo por muitas dificuldades. Eu e meu marido nos relacionamos há seis anos, temos dívidas, pagamos aluguel, e eu mesma penso todos os dias se vou mesmo realizar o nosso sonho. E se um dia realizar, penso o quanto será muito difícil para nós organizar um casamento com os fornecedores de fora da comunidade (vocês verão abaixo porque não teremos como fazer o casamento com os “nossos”). E já combinamos em não revelar, sob hipótese alguma, que somos judeus, para evitar essa facada.

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Entretanto, essa questão vai ser impossível com o cerimonialista. Para que o casamento saia de acordo com o que tem que ser – afinal, o judaísmo tem uma série de rituais –, precisamos de um cerimonialista que nos transmita 300% de confiança, e o faça sem ter que ser fiscalizado. Não dá para uma noiva, no auge de uma crise de bridezilla, ter que ENSINAR ao cerimonialista a fazer como se faz, porque quando você contrata um cerimonialista outsider, tem que ensinar tudo (e fica muito tensa na cerimônia, com medo que dê tudo errado – eu tenho amigos que passaram por isso e é como uma montanha russa no inferno).

E, para nós, as noivas judias sem grana e desesperadas, as que têm um budget entre 15 e 20 mil reais pra se casar, NENHUM dos profissionais do CARTEL JUDAICO DOS CASAMENTOS é acessível. Sim, porque o preço do cerimonialista começa em R$ 10 mil. Isso só para você contar com o nome a pessoa, fora os serviços. Um dos cerimonialistas mais famosos, que aparece MUITO em revistas como Inesquecível Casamento, Vogue Noivas, Caras etc, e que é o sonho de 10 entre 10 noivas judias, não atende ao telefone se a noiva não tiverpelo menos R$ 20 mil para gastar com os seus honorários – sim, honorários. Existe o “filtro da secretária”, no qual a gente informa o budgetpara o valor do cerimonial. Se não tem, nem consegue marcar horário. É assim com TODOS os cerimonialistas da comunidade, seja por telefone ou e-mail, e conforme você informa o valor, não obtém retorno.

Vestido de noiva… Existe um projeto aqui no Rio de Janeiro que atende às noivas judias pobres. Mas ele só atende se você frequenta uma sinagoga X. Se não é, está descartada. E é humilhada por isso. Não abertamente, é claro, mas rola o comentário “Como fulana teve a audácia de vir aqui nos procurar?”. Eu digo que Fulana teve a “audácia” porque é a “audácia” que move o sonho.

E a teia dos rabinos? Bom, o rabino cobra para fazer a cerimônia de acordo com a condição de cada casal. Se o casal é milionário, eles “metem a mão” (conheço uma menina que pagou R$ 5.000,00 por rabino, e usou 18 na cerimônia, o que dá a incrível soma de R$ 90.000,00), porque é a chance que eles têm para faturar. Se o casal é mais modesto, eles fazem um preço especial, ou mesmo dão isenção no preço (isso aconteceu com algumas pessoas que conheço). É um tanto quanto maluco. É caso a caso.

Só que o que MUITA GENTE NEM IMAGINA é que os rabinos INDICAM profissionais para o casamento, pois eles também faturam comissão!!! E os noivos acabam contratando POR OSMOSE. Por exemplo… na sinagoga X, o rabino educadamente sugere que se contrate o cerimonialista Fulano de Tal, que é “íntimo da casa” e “já é habituado com os ritos”, e o cerimonialista Fulano de Tal só trabalha com o fotógrafo X, que indica o florista Y, a doceira Z… A NOIVA FICA AMARRADA numa rede que não consegue se desvencilhar. E só pode casar na sinagoga X porque é “a tradição familiar”… Mesmo que você faça numa casa de festas… você tem que levar esses profissionais… e não dá nem pra economizar no DJ ou na banda, porque certos rabinos também se intrometem nisso. Enfim, TUDO ELES LEVAM COMISSÃO POR TRÁS. E nem pensar em contratar gente de fora.

Muitas de nós peitam e casam com outros profissionais. Ouvem críticas. Aguentam piadinhas. E, mesmo assim, não desistem do sonho.

Por favor, CSG, ajudem a nós, as noivas judias sem grana e desesperadas, a vencer o preconceito que existe dentro de nós mesmas, e mostrar que casar no play do prédio não é feio. Que casar em casa é aceitável. Que fazer uma festa para 50, 30 pessoas não é demérito. Que não ter o cerimonialista X ou o fotógrafo Y não é nada demais. Que casar na sinagoga Z ao invés de casar na sinagoga B também é legal, e que isso não faz menos da pessoa. Que dinheiro não é tudo na vida. Que a decoração pode, sim, ser feita com coisas da China, da 25 de Março, e que tudo pode ficar bonito. Que o DIY também vale no nosso caso. CSG, por favor, abram os olhos das noivas judias sem grana e desesperadas e mostrem que rabinos não podem impor fornecedores. E ter o noivo envolvido nos preparativos é fundamental, pois além deles não serem “mera figuração” no grande dia (o que é MUITO COMUM NA CULTURA JUDAICA E ISSO PRECISA ACABAR!), eles não deixam os fornecedores nos tratarem mal e nos humilharem.

“Ser judeu = ter dinheiro” é uma coisa que só existe na cabeça de gente preconceituosa, porque não é uma verdade absoluta! Ainda ontem eu falava disso com uma amiga… Eu sou uma pessoa como outra qualquer: pago aluguel, devo no banco, atraso contas, enfim, sou um ser humano, e com sentimentos e sonhos. Meu marido, idem. E tá complicado… Eu, Sammia, não sei se vamos conseguir chegar à chupá um dia. Como dizem no jargão judaico, tanto eu quando ele não somos bons partidos (financeiramente falando), mas estamos juntos simplesmente porque nos amamos. Pra nós, isso é o que conta.

A média dos casamentos judaicos, falo do eixo RJ-SP, é de 300 a 700 convidados, e assim, como somos uma comunidade “fechada” (casamos entre nós, são poucos os casamentos “mistos”, e os que acontecem não são bem vistos, por isso há uma tendência à conversão, para que a tradição judaica se mantenha) é raro alguém ficar de fora. Você é primo de um, tio do outro, amigo do um, sócio do outro… e, quando vê, a lista de convidados está GIGANTESCA. Não tem como montar um mini wedding, por exemplo. A verdade é essa.

Mas eu e meu marido estamos noutra. Na verdade, por muuuuuuuuuuuito tempo estive nessa de fazer um super casamento. E custou, viu, Sammia, abrir os olhos e ver que não tinha condições. Cair do cavalo e ralar no chão duro da vida. Mas – em grande parte, graças a você e ao CSG – deu pra ver que é possível, sim, ter outras possibilidades. E é aí que entra uma outra coisa muito importante… a inclusão do noivo nos preparativos. A humanização do casamento.

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O noivo judeu, via de regra, só participa do casamento em dois momentos: dos pagamentos dos fornecedores e da cerimônia. E nada, geralmente, é de acordo com o que ele pensa. Aliás, são POUQUÍSSIMAS as noivas judias que têm o bom senso de incluir seus noivos nos preparativos. Mas isso não é egoísmo, é puramente cultural. De cada 10 noivas, pelo menos 3 ainda se casam no esquema de casamentos arranjados (naquele link da wikipedia diz como é). Fazer um casamento, no judaísmo, infelizmente não é algo simples. Embora isso seja o mais importante, não basta apenas as pessoas se gostarem. Levamos em conta – e levam em conta por nós – muitas outras coisas… e a pressão social é ENORME. Nossos pais e familiares se metem o tempo todo. É impossível se desvencilhar disso.

Sammia, o que as noivas judias precisam entender é que essa história de imposição de fornecedores por parte das sinagogasnão existe. Se o casamento está saindo do bolso dos noivos, não cabe aos rabinos decidir quem serão os fornecedores.

Ofereço-me para dar dicas e responder e-mails de leitoras que procurarem vocês em busca de ideias (judaicas) para o grande dia. E caso queriam saber mais, e queiram saber NOMES, não se furtem, ME ESCREVAM.

Beijos,

Yocheved”

***

Terrível, né?
Em primeiro lugar, gostaria de deixar claro que o Casando sem Grana respeita todos os grupos sociais, culturais e religiosos presentes na nossa cultura brasileira e também aos frequentadores aqui do blog. Não pretendemos ofender esse grupo religioso tão tradicional historicamente. A ideia é levantarmos opiniões sobre o assunto e quem sabe, possíveis soluções sobre o problema. Na verdade, como disse a Yocheved, se realmente pudermos ajudar dando voz a sua denúncia, já valeu a pena o esforço.

Dada todas as variáveis complicadas que você nos apresentou e sabendo eu tão pouco até então da cultura judaica, confesso não ter certeza se minhas ideias podem ajudá-la. Entretanto quero me colocar a disposição para pensar, em conjunto com você e com outras noivas judias sem grana, como podemos agir em favor dessa comunidade.

Agradeço seu relato pois ele quebrou meus próprios preconceitos e espero que faça o mesmo com outras leitoras. Se não nos unirmos e nos ajudarmos, continuaremos eternamente reclamando das mesmas coisas e não encontrando solução nenhuma.

Então, se você pudesse dar um conselho ou ajudar a Yocheved, o que você faria?

 

Beijos!

 

 

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